Cinema no FOR|Blog – A Culpa é do Fidel

Desta vez no FOR|Blog o encantador ‘A Culpa é do Fidel’, o filme aclamado pelo público em 2006 conta a história da pequenina e geniosa Anna e apresenta um mundo dividido entre duas barbáries. Filha do famoso diretor do cinema político clássico, o grego Costa Gavras, Julie Gavras diretora estreante conta um pouco de seu próprio despertar político. ‘A Culpa é do Fidel’ se passa na França dos anos 70, mas mostra a tomada de consciência dos pais e consequentemente da pequena Anna em relação à situação chilena sob o comando de Salvador Allende. Cinema Político Moderno na melhor forma o filme é leve com um toque de humor inteligente, não mostra, mas sensibiliza!

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‘A culpa é do Fidel’ carrega no nome o peso de um momento histórico rico em acontecimentos, após a morte do ditador soviético Josep Stalin em 1953 e a abertura de seus crimes há uma consequente baixa da ‘esquerda’ mundial, mas no fim da década de 60 um novo impulso é sentido com a revolução cubana e o romântico maio de 68 na França; é o mundo bipolarizado da guerra fria. Diversos são os contextos citados no filme, desde o regime ditatorial de Franco na Espanha, a babá Vietnamita, a babá Grega e a reacionária babá refugiada de Cuba, o foco na situação chilena reflete os vários intentos de governos de ‘esquerda’ na America latina, todos sufocados por regimes ditatoriais duríssimos, apoiado pelo governo estadunidense. Contudo o filme é leve e bem humorado, não mostra os conflitos, mas as confusões da jovem Anna tentando entender esse mundo de extremos.

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Mantendo o que se tornou um modelo do Cinema Político Moderno, o filme é centrado na figura de Anna, a construção do personagem infantil é extremamente cuidadosa e consegue tocar em pontos fundamentais para nós – adultos. Anna é uma pequenina burguesa com todos os mimos de sua classe, mas é surpreendida pela mudança de posicionamento e comportamento dos pais, após a morte do tio pelo duro regime Franquista, o consequente apoio ao regime chileno de Salvador Allende após uma viajem ao país, completam a mudança ideológica dos pais, impensada para um criança de 9 anos. Anna vem de uma criação religiosa e tradicionalista, apesar de muito nova, mostra o quanto a cultura burguesa está enraizada, toda graça do filme vem de sua rabugenta resistência; seus avós, a babá cubana, as coleguinhas de escola, contribuem para manter sua inocente resistência, mas o fundamental é que não lhe são apresentados os motivos para mudar – me pergunto, é possível explicar isso para uma criança?

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A escolha da diretora em trabalhar com um personagem infantil é fundamental, as perguntas de Anna são simples e diretas, nem sempre são respondidas, mas contribuem para explicitar a crueza do momento histórico. O contraponto a pequenina ‘múmia’ – como o pai chama Anna, comparando-a a uma fração da direita chilena – é seu irmão mais novo, François, não questiona, não se importa, não percebe. Anna torna-se o personagem ideal para o contexto não somente por ser criança, mas por sua curiosidade. O centro na figura infantil não esta somente na história, a ‘forma’ acompanha muito bem o roteiro, utilizando um recurso comum nos desenhos animados, o filme é em boa parte filmado com a câmera média, na linha da cintura, é a perspectiva infantil de fato. Mais que um novo modelo cinematográfico é um novo conteúdo determinando a já amadurecida forma artística do cinema.

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O filme é muito mais rico e divertido do que podemos comentar. A tomada de consciência de Anna é o ponto chave, o motivo do filme; nenhuma característica técnica chama mais atenção que as ações dos personagens. A transformação de Anna já vale o filme, conseguir deixar uma perspectiva humana em um final marcado pelo duro golpe de estado chileno, é uma capacidade alcançada por poucos artistas no século XX. As últimas cenas são fundamentais e cinematográficas por excelência, as imagens falam; logo após a trágica e histórica notícia, a menina segura a mão de seu pai em silêncio, como nos, compreende; foi sim uma triste derrota histórica da ‘esquerda’, perdemos, mas é o futuro!? Na ultima cena, na nova escola, a ‘nova’ Anna se junta as outras crianças e brinca!

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De uma ditadura à outra, ‘O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias’ trás para o Brasil o cinema político moderno. Após um considerável intervalo no FOR|Blog o cinema volta entre as descobertas da infância e a paixão nacional pela Copa de 70. O filme de Cao Hamburger se apoia na infância do jovem Mauro e consegue mostrar, sem mostrar a ditadura velada que ainda hoje busca pela verdade. O filme leve mergulha nas minúcias da infância, entre descobertas e presepadas regadas a futebol e diversão com os novos amigos!

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[video]http://www.youtube.com/watch?v=lRWjv5fj8Dg[/video]

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