Cinema no FOR|Blog – Pão e Rosas

Nessa semana no FOR|Blog um contraponto ao cinema hollywoodiano. A obra do engajado diretor inglês, Ken Loach, é um exemplo de filmes não comerciais, dentre eles ‘Pão e Rosas’, merece atenção, mas vale citar ‘Terra e Liberdade’ e ‘Ventos da Liberdade’, dois épicos impressionantes. Em Pão e Rosas a ‘ausência de perspectiva social’ aparece de maneira direta, Ken Loach trata somente do assunto que gostaria de tratar, mostrando a condição de subemprego dos imigrantes nos Estados Unidos, sem apelo comercial, é um filme realista. Mas para que vamos abrir mão da fantasia do cinema para depararmo-nos com a crua realidade? E porque vamos abrir mão da realidade artística pela fantasia comercial, pergunto!?

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Como em todos os filmes de Ken Loach a temática não tem apelo comercial. ‘Pão e Rosas’ consegue prender a atenção do público por sua característica humana, o próprio roteiro torna-se o principal ponto do filme. Não percebemos a fotografia, a direção de arte, a trilha; não somos impactados como no cinema hollywoodiano. A grande habilidade de Ken Loach é fazer com que a história tenha mais importância que todos esses recursos, eles servem à história. A potencialidade artística do cinema está na ‘fantasia não-fantástica’. Mergulhar na vida dos personagens pelo seu conteúdo humano, suas ações. Esse tipo de cinema é conhecido como anticlímax, joga com a inteligência do público, não vemos, mas entendemos.

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‘Pão e Rosas’ é o ciclo completo da chegada da imigrante, Maya, ilegalmente nos Estados Unidos, à sua deportação na última cena. Um roteiro completo que não depende da subjetividade de quem vê o filme, não empolga como o cinema hollywoodiano, pois, é demasiado real para provocar romantismos, deixa somente um nó na garganta. Não se pode distinguir a primeira cena, documentário ou filme!? A câmera subjetiva da última cena (como se fosse a própria Maya vendo a irmã correndo atrás do ônibus) mostra como os recursos cinematográficos são bem usados, não os percebemos. Sentimos!

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No filme o processo de sindicalização, inicializado por Sam, muda a vida dos personagens e evidências as relações de trabalho no capital. Maya trabalha de faxineira com a irmã, Rosa, mas não tem a mesma tolerância para sua sub-condição; é responsável pela tomada de consciência dos outros trabalhadores..

“Estou fazendo porque minha irmã trabalha 16 horas por dia desde que ela chegou aqui, porque seu marido não tem como pagar hospital, não tem assistência médica como 40 milhões de pessoas deste puto país, que é o mais rico do mundo! (…) Eu faço porque nós alimentamos esses canalhas. Limpamos as suas bundas, aprontamos tudo. Criamos os filhos deles, e eles nem nos notam.”

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Movimentações por parte do sindicato começam a acontecer, mas todo processo de mudança social vem acompanhado de uma forte resistência, são os próprios trabalhadores que tem medo. Não é fácil arriscar quando você depende do emprego para viver, não há romantismo, é uma escolha constante na vida, e é difícil escolher. “Podemos estar na merda, mas fazemos o melhor que podemos.” O ressentimento de Rosa tem motivos de ser, sem o mesmo amparo que a irmã, foi obrigada a prostituir-se para alimentar a família, não confia em mais ninguém; o marido doente, sob pressão com Berta (demitida na mesma situação), passa por cima de todos para conquistar uma melhor condição, é responsável por uma serie de demissões. O reflexo de suas ações é o estopim do movimento, sua traição une os demais em um movimento legítimo. Todo processo de resistência no capital é legítimo.

“Estamos lutando pelo seguro de saúde, certo? Para sermos respeitados. Nós queremos pão, mas queremos rosas também. Queremos todas as coisas boas da vida. (…) Ninguém lhes dá rosas de graça. Ninguém. Sabem quando ganharão rosas? Quando pararem de implorar e se organizarem.”

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O cinema, assim como as outras artes, consegue exprimir o processo de transformação social da consciência humana, acompanhamos a transformação dos personagens em ‘Pão e Rosas’. A tomada de consciência da condição humana é uma via de duas mãos, tanto os personagens quanto público se vêem refletidos, se vêem mais humanos. Não precisamos de grandes cenas, de astros, de fantasia… basta a realidade! Não precisamos de regras e modelos, o conteúdo deveria sempre determinar a forma de um filme. Não os produtores.

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A coluna de cinema no FOR|Blog tem como intuito apresentar e propor críticas a filmes que vão para além do cinema de mercado. Trazer filmes dentro de um mesmo tema possibilita explorar melhor cada conteúdo, os primeiros filmes aqui apresentados tinham traços da ‘ausência de perspectiva social’ em diferentes circunstâncias. Vamos na próxima semana falar diretamente sobre o tema… Trainspotting, Laranja Mecânica, Beleza America, Os Edukadores, Clube da Luta e Pão e Rosas completam essa temática, no próximo post anunciamos a próxima, confiram!

Category: TODOS
Tag: bread and roses, cinema, filme, ken loach, mad fontoura, pão e rosas, URBANFOR